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28 fevereiro 2015

533

    (Foto: Lauro Lisboa Garcia)

Fortaleza
ROGERIO SANTOS
[(inspirada na) foto de Lauro Lisboa Garcia]

A poesia quando concreta
tinge em cores
as pretensiosas paredes

Subverte areia e água
terra e suor
invade fendas e fissuras

até caber exata
na alma dos tijolos

e num piscar de olhos
o que era uma fria fortaleza
enche os olhos de jardim

se um outono é negativo
a primavera sela-se em mim

/

03 fevereiro 2015

532



Pontiagudos
ROGERIO SANTOS

um abelha
me picou o pé
uma vespa
me picou a mão
uma agulha
me furou a orelha
um amigo
me furou os olhos
e o cupido
[que fugiu desavisado]
acertou meu coração
e está amplamente desculpado


/

20 janeiro 2015

531



Palavra de Poeta
ROGERIO SANTOS

na mente do poeta,
a palavra é semente
a palavra floresce
na boca do poeta

no coração do poeta
a palavra bomba
a palavra escorrega
na sombra do poeta

na pele do poeta
a palavra descansa
a palavra inspira
no pulmão do poeta

nos olhos do poeta
a palavra se fecha
a palavra brilha
na alma do poeta

na face do poeta
a palavra é bonita
a palavra se excita
no colo do poeta

nos lábios do poeta
a palavra namora
a palavra se entrega
na língua do poeta

17 janeiro 2015

530



Resedá
Melodia: ANNA PAES
Letra: ROGERIO SANTOS

Entre as ladeiras da cidade ela se pôs
O olhar levando o que já foi desse lugar
No céu o mesmo azul reconheceu
Um suspiro feito o seu
Caiu do pé de resedá

Outras paredes
Outros pássaros no ar
As novidades que vieram pra ficar
Um arranha-céu que arranha a alma
Um fim de tarde que chegou
Antes do luar

Ah! Que lindas noites memoráveis
Uma, nem, duas talvez, três era pouco
Meu canto atravessando a madrugada
De déu em déu, bar em bar,
Coisa boa relembrar

Lágrimas nos olhos que me escolhem
Sabem bem como sonhei em te encontrar
Pra dizer o que não disse - do amor -
Pra caminhar enrolado em teus cabelos,
Feito flor de resedá.

Quantas vertigens a vaidade nos impõe
Se desatentos embarcamos sem pensar
Descaso é caminho pra descer
Faz a gente se perder
É pirambeira e despencar

Mas chega o tempo de buscar o que ficou
E a saudade é uma ladeira pra encarar
Quando falta perna e vem a conta
O tempo passa, o amor se foi
Nada vai voltar

Tempo de regar meu pé de resedá
Fazer um coração
Nele declarar o amor que eu sinto por você
Dele recolher um novo choro canção

Gente que não chora não merece compaixão
Entrego aqui esse meu canto 
Feito em forma de oração
Pra de vez fazer valer
O encontro desse conto em desencontro
Pra também pedir perdão

Entre as ladeiras da cidade ela se pôs
O olhar levando o que já foi desse lugar
No céu o mesmo azul reconheceu
Um suspiro feito o seu
Caiu do pé de Resedá

Outras paredes
Outros pássaros no ar
As novidades que vieram pra ficar
Um arranha-céu me arranha a alma
O tempo passa, o amor se foi

Nada vai voltar

15 janeiro 2015

529

(Foto: João Paulo Gonçalves)

Errante
(Letra: Rogerio Santos)
(Essa letra foi feita para uma melodia, e aguarda desdobramentos)

Se o amor pra ela é um companheiro a mais
Pira de quimeras que não se desfaz
Se o amor é um porto sempre tão fugaz
Tábua de outros mares e outros litorais

Se o amor pra ela é sorte a se lançar
Sente um novo norte em cada novo mar
Se o amor é corte, a carne, então é cais
Erra, enquanto erra mais

Se o amor pra ela é sempre circular
Ártico, antártico, arte articular
Se o amor é morte, o ciclo se refaz
Ela, enquanto erra, jamais

Se o amor pra ela é feito velejar
Íntimos estreitos de colecionar
Se o amor, Mar Morto, salga até matar
Abre um oceano, ante Gibraltar

Se o amor pra ela é sorte a se lançar
Sente um novo norte em cada novo mar
Se o amor é corte, a carne, então, é cais
Erra, enquanto erra mais

Se o amor pra ela é sempre circular
Ártico, antártico, arte articular
Se o amor é morte, o ciclo se refaz
Ela, enquanto erra, jamais

/

01 janeiro 2015

528




Planos de Curto Prazo
ROGERIO SANTOS

- no primeiro minuto do ano:

abraçar e beijar o meu amor
abraçar e beijar os meus amigos
tomar meia garrafa de champanhe
sorrir e pular sete ondas
ficar nu e mergulhar no mar
contemplar constelações no céu escuro
sentir de perto o som das águas
pisar o chão com o corpo inteiro
respirar consciente do fato
agradecer por mais um ano
agradecer por mais um dia
agradecer por sentir poesia
pedir lucidez, saúde e proteção
para a escolha de novos caminhos
nos quinhentos mil minutos que virão


25 dezembro 2014

527


Feito Samba
ROGERIO SANTOS
(para tema de Walter Martins)

Quando o amor é feito samba
Não tem hora pra acabar
Dita a regra, vira o jogo
E quando parte, quer ficar

Se dobrar aquela esquina
E a saudade se achegar
O encanto vira pranto
E é o amor quem vai sambar

É que o amor é feito samba
Meio alegre e meio triste
Feito os passos de uma dança
Numa trama de tear

Todo amor é feito samba
E a cadência, a gente dá
É no encontro de dois corpos
Inventando outro lugar

Um lugar que tem poesia
Feito em letra de canção
Atrelada à melodia
Quando o céu parece o chão

Meu amor é feito samba
Quando cai na quebradeira
E a cadência é sincopada
Porque a alma é brasileira













24 dezembro 2014

23 dezembro 2014

525



Pensata
ROGERIO SANTOS

No Brasil tem muita gente
que deveria tirar a roupa
e vestir um batente

22 dezembro 2014

524




Pensata
ROGERIO SANTOS

O tempo passa
eu tento
quando a vida me amassa
molho a alma na chuva
e estendo no vento

21 dezembro 2014

523





Rimas e Desencontros
ROGERIO SANTOS

as delicadezas
não combinam com o horário
as sutilezas
não combinam com o concreto
as gentilezas
não combinam com o sumário
as correntezas
não combinam com o decreto
as realezas
não combinam com o salário
as miudezas
não combinam com o universo
as redondezas
não combinam com o operário
as riquezas
não combinam com o adverso
é a vida que segue meio confusa
em rotatória de rimas e desencontros



20 dezembro 2014

522





Metades
ROGERIO SANTOS

meu amor é tão grande
que dá a maior bandeira
tão grande, tão grande
que invade qualquer cantinho
[fresta, furo, fenda, oferenda]
metade do copo vazio
[água que carrego no sangue]
metade do copo cheio
[água que encanta meus olhos]
fica bem se tem barulho
fica bem em profundo silêncio
meu amor é tão imenso
que meu estado indisfarçável
é de permanente gratidão
beleza pura [ou com limão]

19 dezembro 2014

521





Pensata
ROGERIO SANTOS

pomar de alimento orgânico,
a poesia, quando é cultivada,
dispensa agrotóxicos.

18 dezembro 2014

520



Pelo Cano
ROGERIO SANTOS

canta Cantareira
dá pó na garganta gritar tuas fontes
que sina de morte de lama te cala
que lama de sina de morte me fala
-"não vais faltar, não vais faltar"

tomba a minha casa
teu chão que me hidrata um sol que te arrasa
que sanha que tipo de peixe te empala
que cena que pira que piracema te rapta
- "não vais faltar, não vais faltar..."

canta Cantareira
na voz sufocada de mil carpideiras
um cisne que nada na última gota
que rola do rosto feito cachoeira
- "não vais faltar, não vais faltar..."

tomba a minha casa
Na TV, na ilusão, na mentira do não
Na questão dos papéis do último pregão
Na certeza do tiro que fecha o caixão
- "não vais faltar, não vais faltar..."

até hoje, amanhã, ou no próximo ano
um cano é o que sobra para o paulistano.












17 dezembro 2014

519

foto João Paulo Gonçalves


Pensata
ROGERIO SANTOS

o tempo
como é relativo
quando é intenso

16 dezembro 2014

518


Pensata
ROGERIO SANTOS
a vida
é feito massa de modelar
- desista 500 vezes -
mas divirta-se ao recomeçar

15 dezembro 2014

517


Papo Cabeça
ROGERIO SANTOS

minha cabeça vai bem 
equilibrada em cima do corpo
minha cabeça até que zen
estranha a lentidão com quem me movo
um corpo em nós e uma cabeça veloz
cabeça olímpica com pernas de Usain Bolt
as pernas em trote na cadência dos 20 volts
mas nada evidencia ruptura ou curto-circuito
tudo indica que seguem juntas até a morte
é um tradicional casamento por conveniência
com a cabeça amante da preguiça
e as pernas amantes da paciência



14 dezembro 2014

516



Euridiciana
(para o tema de Italo Peron)

quando o amor partir
sem poder voltar
corte o fio do tempo

queime tudo o que ferir
guarde um derradeiro olhar
tudo tem começo e meio
e o fim é um novo esteio pra recomeçar

se a dor da partida teima em não ter fim
nem toda saudade insiste em ser ruim
não caia na tentação de olhar pra trás
que o choro vem do jeito certo pra hidratar

entenda que saudade é feita de esperança
e dentro de toda esperança há vida
e onde há vida mora o amor
que, quando a tristeza for
brotará toda a beleza
a essência que ficou

ouça o som da valsa
como fez Vinícius
sinta o seu caminho
pronto para um novo amor

(pronto pra recomeçar)

13 dezembro 2014

515


Avenida da Liberdade
ROGERIO SANTOS

a Avenida da Liberdade
está sempre congestionada
e é proibido estacionar
na Avenida da Liberdade

na Avenida da Liberdade
não há faixa de segurança
e entramos na contramão
da Avenida da Liberdade

a Avenida da Liberdade
tem sempre os sinais fechados
nas vias de duplo sentido
da Avenida da Liberdade

na Avenida da Liberdade
as calçadas são estreitas
e as conversões à direita
na Avenida da Liberdade

a Avenida da Liberdade
é cheia de transversais
e muitas tergiversais
na Avenida da Liberdade

na Avenida da Liberdade
alguns tem olhos puxados
muitos tem olhos fechados
na Avenida da Liberdade

a Avenida da Liberdade
une o Centro ao Paraíso
da utopia ao conciso
a Avenida da Liberdade

a Avenida da Liberdade
não reproduz a minha rua
nem cruza a minha cidade
a Avenida da Liberdade


11 dezembro 2014

514


Entremeio
ROGERIO SANTOS

os sons, os sonhos, os sinos, as sinas, as somas, as sílabas, os sinais.
tudo o que sibila alça voo rompe o teto da cabeça que reluz e é ouro,
tudo vaticina que alucina, e aterriza sobre o tempo, sobe e desce, agoniza e não.
nada quer saber de ter sentido, verbo é sexy, é sexo, cama e comprimido.
quer o sono do após ou quase, aquele momento em que o nexo é o instante


10 dezembro 2014

513


Pensata
ROGERIO SANTOS

por que, porque, por quê ou porquê?
não há dúvidas
o que importa mesmo são as perguntas

07 dezembro 2014

512



Achados & Perdidos
ROGERIO SANTOS

São Paulo é uma questão complicada
e a resposta é de múltipla escolha
:
quem é safo vai na letra
quem se arrisca mete um chute
quem se encontra vai na encolha
quem se acha cai no embuste



06 dezembro 2014

511



Ato
ROGERIO SANTOS

o meu momento
é só poesia em movimento

meu corpo nem sempre fala
mas o olhar é todo voice
nascente em fonte verdana
de tamanho dezesseis

o passado e o futuro
o ato e a consequência
e quando vi
já há teia

no momento



04 dezembro 2014

510


Pequeno Tratado Biodegradável
ROGERIO SANTOS

o corpo é poesia em forma de carne,
o cerne.
o poro que expele o que não é contido,
o siso.
a boca revele o que não ignora,
a hora.
os pés reinventem o próximo passo,
o ato.
os dedos compilem o que não se escreve,
o leve.
o peito se abra sem muita demora,
agora.
os olhos naveguem estrelas e luas,
aflua
os lábios incensem perfume de aurora,
aflora.
o poro e a boca, os pés e os dedos,
segredos
o peito e os olhos, os lábios e o corpo,
conforto
a carne é poesia em forma de cerne,
externe
a carne é poesia em forma de cerne.
.

01 dezembro 2014

509



Não vai ter Copa
ROGERIO SANTOS

disseram:"não vai ter copa"
disseram, (mas só que não)
ô meu Deus, meu Deus tem dó...
tô sobrando de zureta

eu queria me mudar
para fora do planeta
eu já não aguento mais
esses malas de corneta

já clamei pelo Senhor
já chamei pelo capeta
já rodei de bar em bar
feito um pião carrapeta

Viracopos e Dubar
e meu sono de veneta
agora de tanto tretar
ganho fama de careta

eu só quero descansar
como um santo picareta
protetor auricular
e um remédio tarja preta

hoje ninguém vai sambar
na frente da minha mureta
nem que eu tenha que pagar
um amigo proxeneta


hoje ninguém vai sambar....
ah... não....
quem dorme num barulho desses?

22 novembro 2014

508



Perto
ROGERIO SANTOS

(musicado por FHERNANDA FERNANDES)

perto é distância
perto, tem chão
quando por perto
tem solidão

quando por perto
tem os meus olhos
na tua pele
perto das mãos

perto é tão longe
perto é talvez
perto é amarra
que não se desfez

quando por perto
paira uma dor
feito um aperto
feito de amor

perto um apelo
do meu coração
só quer o sim
distante do não

19 novembro 2014

507

(foto de João Paulo Gonçalves)

Beira de Lagar (3° poema)
ROGERIO SANTOS

outono no ar
as folhas esperam pelo chão
as folhas se espalham
espelhos de um voo temporão

qual folha que voa para o não
na "Folha de Cima" sinto o ar
da terra nos olhos de meu pai
que foram morar noutro lugar

a folha cultiva meu olhar
no chão de uma "beira de lagar"
é o voo do sonho de meu pai
no ar, já no céu, perto do chão

é folha tão boa de voar
as folhas já sabem que voltar
é verbo que não se aplica mais
e cuidam de borboletear

13 novembro 2014

506



Na Conde de Irajá
ROGERIO SANTOS

Tenho um amigo de grande coração
Que nunca pôs os pés num hospital
Troca o dia pela noite e o violão
Paga o dobro e manda outro em seu lugar

Dia desses teve uma palpitação
Ao ver uma morena requebrar
Foi sururu desses de enturvar visão
No botequim lá da Conde de Irajá

Aí não teve jeito, nem deu pra correr
Quando o bicho pegou e a ambulância lá
- Quem chama o doutor? Quem manda chamar?

Ele que é do samba e nunca negou
Mesmo vivendo essa extrema situação
Pediu pelo Belmiro o seu perdão
E cochichou em um tom particular

“Eu prefiro até morrer no chão
Do que ir prum corredor de Hospital
Se for a hora, me leva pro São João
E no velório é pra servir “Original”

Aí não teve jeito e nem deu pra correr
Quando o bicho pegou e a ambulância lá
- Quem chama o doutor? Quem manda chamar?

Foi aí que alguém gritou – ollvide
Quem dá conta é o doutor Carlos Gomide
No dedilhado de mulher, de violão
Esse sabe tudo de anestesiar

Foram chamar o distinto doutor
Que tranquilão fez logo se chegar
E como tal, deu logo solução
Porque o samba não pode parar

Não sei ao certo como o caso acabou
Mas essa história eu tinha que contar
“Doce de Côco”, “Água de Beber”, "Sei lá"
...sei não.

Sei que a morena
Ele arrastou pra outro lugar...

23 outubro 2014

505



Cristalino
ROGERIO SANTOS

o grão e as asas
o preto e o branco
o pó e o estilhaço

o peso vence o ar
como o tempo voa

a turbina é o olhar
o amor é o espaço
e o que era pedra
é areia e saudade

um cismo teimoso
um som de concha
e a bruma no ouvido

tudo são flores e Flores
nas lentes silentes
do mais cristalino

08 outubro 2014

504



Pensata
ROGERIO SANTOS

quem "se acha"
se perde justamente do grande barato de todas as coisas:
- a procura.