Visualizações

09 abril 2015

541



Que Chico não veja
ROGERIO SANTOS

aquela moça
de adorno poético
cravado na pele
esfinge na boca
lascívia e olor

aquela moça
de distância confusa
entre os pés e a nuca
entre o não e o nunca
entre o já e o até

aquela moça
de relógio invisível
na névoa fria
com choro de flauta
com toque de flor

aquela moça
de cepa sublime
de olhar terra roxa
compassos certeiros
ataques espertos

aquela moça
tem nela poesia
que dá uma canção
(que Chico não veja
que entorna no chão)

/

05 abril 2015

540



Via Crucis
ROGERIO SANTOS

o poema é meu calvário
é onde me entrego à cruz
do escasso vocabulário

cada palavra é um prego
meu sudário é um dicionário


04 abril 2015

539




Pardo
ROGERIO SANTOS

meu primeiro poema
escrevi num caderno
encapado com papel pardo

era um poema infantil
como o coração de quase todo brasileiro
que carrega poesia no sangue

não era europeu
não era índio
não era negro

lembro que era humano
quando o olhar procura a pele

e era europeu
e era índio
e era negro

e era bem brasileiro

e era judeu
e era árabe
e era também oriental

a cor da pele sob os olhos

que eram verdes
que eram azuis
que eram castanhos
que eram negros

que eram redondos
que eram mestiços
que eram amendoados
que eram puxados

e, o que contava
era a pele sob os olhares
onde se suporta cores
onde o arco é um outro barco

e eram os olhos
do coração de um brasileiro
que marejavam

como tantos
um menino poeta
e sua visão

sob um olhar
de farol

de pele parda

/

02 abril 2015

538



Tríade
ROGERIO SANTOS

meu sim...
meu não...
sempre vestem reticências
são de triangulação
amantes endiabrados
do talvez...

31 março 2015

537



Lugar Movimento
ROGERIO SANTOS

hoje eu venho pra cantar
a poesia do meu lugar
meu lugar é o movimento
quando a voz que vai no vento
feito um voo de semente
é o amor que eleva a gente

27 março 2015

536



Pensata
ROGERIO SANTOS

quando a luz é poética
não há treva
não há túnel que se atreva

19 março 2015

535



Pensata

Galileu descobriu que a Terra era redonda
Hoje é fácil deduzir o quanto está ficando cada dia mais chata

12 março 2015

534



Estrada do Contorno
ROGERIO SANTOS
(letra para tema de Andréa dos Guimarães)

via, lá na casa da praia, a Taperá
já deu seu tempo de chegar
e o João-de-Barro vai sofrer

dia mal raiou, a briga vai começar
é a natureza dos dois
de se enfrentar até saber
quem vai errar por aí
quem vai ficar
pra aquecer, de novo, o amor

a dança que acontece no ar
um ciclo que enternece
que a vida engole o olhar

havia lá na beira do mar, um coqueiral
e o caminho era um contorno
um sonho bom de recorrer

sempre eu e você
da nossa casa, a espreitar
se o vento sul vem bater
se vai chover, se o amor se for
despenca o céu que vai verdejar

ceivar

/

28 fevereiro 2015

533

    (Foto: Lauro Lisboa Garcia)

Fortaleza
ROGERIO SANTOS
[(inspirada na) foto de Lauro Lisboa Garcia]

A poesia quando concreta
tinge em cores
as pretensiosas paredes

Subverte areia e água
terra e suor
invade fendas e fissuras

até caber exata
na alma dos tijolos

e num piscar de olhos
o que era uma fria fortaleza
enche os olhos de jardim

se um outono é negativo
a primavera sela-se em mim

/

03 fevereiro 2015

532



Pontiagudos
ROGERIO SANTOS

um abelha
me picou o pé
uma vespa
me picou a mão
uma agulha
me furou a orelha
um amigo
me furou os olhos
e o cupido
[que fugiu desavisado]
acertou meu coração
e está amplamente desculpado


/

20 janeiro 2015

531



Palavra de Poeta
ROGERIO SANTOS

na mente do poeta,
a palavra é semente
a palavra floresce
na boca do poeta

nas veias do poeta
a palavra bomba
a palavra escorrega
na sombra do poeta

na pele do poeta
a palavra descansa
a palavra inspira
no peito do poeta

nos olhos do poeta
a palavra se fecha
a palavra brilha
na alma do poeta

e na face do poeta
a palavra é bonita
a palavra se excita
no colo do poeta

nos lábios do poeta
a palavra namora
a palavra se entrega
na língua do poeta

17 janeiro 2015

530



Resedá
Melodia: ANNA PAES
Letra: ROGERIO SANTOS

Entre as ladeiras da cidade ela se pôs
O olhar levando o que já foi desse lugar
No céu o mesmo azul reconheceu
Um suspiro feito o seu
Caiu do pé de resedá

Outras paredes
Outros pássaros no ar
As novidades que vieram pra ficar
Um arranha-céu que arranha a alma
Um fim de tarde que chegou
Antes do luar

Ah! Que lindas noites memoráveis
Uma, nem, duas talvez, três era pouco
Meu canto atravessando a madrugada
De déu em déu, bar em bar,
Coisa boa relembrar

Lágrimas nos olhos que me escolhem
Sabem bem como sonhei em te encontrar
Pra dizer o que não disse - do amor -
Pra caminhar enrolado em teus cabelos,
Feito flor de resedá.

Quantas vertigens a vaidade nos impõe
Se desatentos embarcamos sem pensar
Descaso é caminho pra descer
Faz a gente se perder
É pirambeira e despencar

Mas chega o tempo de buscar o que ficou
E a saudade é uma ladeira pra encarar
Quando falta perna e vem a conta
O tempo passa, o amor se foi
Nada vai voltar

Tempo de regar meu pé de resedá
Fazer um coração
Nele declarar o amor que eu sinto por você
Dele recolher um novo choro canção

Gente que não chora não merece compaixão
Entrego aqui esse meu canto 
Feito em forma de oração
Pra de vez fazer valer
O encontro desse conto em desencontro
Pra também pedir perdão

Entre as ladeiras da cidade ela se pôs
O olhar levando o que já foi desse lugar
No céu o mesmo azul reconheceu
Um suspiro feito o seu
Caiu do pé de Resedá

Outras paredes
Outros pássaros no ar
As novidades que vieram pra ficar
Um arranha-céu me arranha a alma
O tempo passa, o amor se foi

Nada vai voltar

15 janeiro 2015

529

(Foto: João Paulo Gonçalves)

Gibraltar
(Letra: Rogerio Santos)
(Essa letra foi feita para uma melodia, e aguarda desdobramentos)

Se o amor pra ela é um companheiro a mais
Pira de quimeras que não se desfaz
Se o amor é um porto sempre tão fugaz
Tábua de outros mares e outros litorais

Se o amor pra ela é sorte a se lançar
Sente um novo norte em cada novo mar
Se o amor é corte, a carne, então é cais
Erra, enquanto erra mais

Se o amor pra ela é sempre circular
Leva meu querer, sirena singular
Se o amor é morte, o ciclo se refaz
Ela, enquanto erra, jamais

Se o amor pra ela é feito velejar
Íntimos estreitos de colecionar
Se o amor, Mar Morto, salga até matar
Abre um oceano, ante Gibraltar

Se o amor pra ela é sorte a se lançar
Sente um novo norte em cada novo mar
Se o amor é corte, a carne, então, é cais
Erra, enquanto erra mais

Se o amor pra ela é sempre circular
Leva meu querer, sereia singular
Se o amor é morte, o ciclo se refaz
Ela, enquanto erra, jamais

/

01 janeiro 2015

528




Planos de Curto Prazo
ROGERIO SANTOS

- no primeiro minuto do ano:

abraçar e beijar o meu amor
abraçar e beijar os meus amigos
tomar meia garrafa de champanhe
sorrir e pular sete ondas
ficar nu e mergulhar no mar
contemplar constelações no céu escuro
sentir de perto o som das águas
pisar o chão com o corpo inteiro
respirar consciente do fato
agradecer por mais um ano
agradecer por mais um dia
agradecer por sentir poesia
pedir lucidez, saúde e proteção
para a escolha de novos caminhos
nos quinhentos mil minutos que virão


25 dezembro 2014

527


Feito Samba
ROGERIO SANTOS
(para tema de Walter Martins)

Quando o amor é feito samba
Não tem hora pra acabar
Dita a regra, vira o jogo
E quando parte, quer ficar

Se dobrar aquela esquina
E a saudade se achegar
O encanto vira pranto
E é o amor quem vai sambar

É que o amor é feito samba
Meio alegre e meio triste
Feito os passos de uma dança
Numa trama de tear

Todo amor é feito samba
E a cadência, a gente dá
É no encontro de dois corpos
Inventando outro lugar

Um lugar que tem poesia
Feito em letra de canção
Atrelada à melodia
Quando o céu parece o chão

Meu amor é feito samba
Quando cai na quebradeira
E a cadência é sincopada
Porque a alma é brasileira













24 dezembro 2014

23 dezembro 2014

525



Pensata
ROGERIO SANTOS

No Brasil tem muita gente
que deveria tirar a roupa
e vestir um batente

22 dezembro 2014

524




Pensata
ROGERIO SANTOS

O tempo passa
eu tento
quando a vida me amassa
molho a alma na chuva
e estendo no vento

21 dezembro 2014

523





Rimas e Desencontros
ROGERIO SANTOS

as delicadezas
não combinam com o horário
as sutilezas
não combinam com o concreto
as gentilezas
não combinam com o sumário
as correntezas
não combinam com o decreto
as realezas
não combinam com o salário
as miudezas
não combinam com o universo
as redondezas
não combinam com o operário
as riquezas
não combinam com o adverso
é a vida que segue meio confusa
em rotatória de rimas e desencontros



20 dezembro 2014

522





Metades
ROGERIO SANTOS

meu amor é tão grande
que dá a maior bandeira
tão grande, tão grande
que invade qualquer cantinho
[fresta, furo, fenda, oferenda]
metade do copo vazio
[água que carrego no sangue]
metade do copo cheio
[água que encanta meus olhos]
fica bem se tem barulho
fica bem em profundo silêncio
meu amor é tão imenso
que meu estado indisfarçável
é de permanente gratidão
beleza pura [ou com limão]

19 dezembro 2014

521





Pensata
ROGERIO SANTOS

pomar de alimento orgânico,
a poesia, quando é cultivada,
dispensa agrotóxicos.

18 dezembro 2014

520



Pelo Cano
ROGERIO SANTOS

canta Cantareira
dá pó na garganta gritar tuas fontes
que sina de morte de lama te cala
que lama de sina de morte me fala
-"não vais faltar, não vais faltar"

tomba a minha casa
teu chão que me hidrata um sol que te arrasa
que sanha que tipo de peixe te empala
que cena que pira que piracema te rapta
- "não vais faltar, não vais faltar..."

canta Cantareira
na voz sufocada de mil carpideiras
um cisne que nada na última gota
que rola do rosto feito cachoeira
- "não vais faltar, não vais faltar..."

tomba a minha casa
Na TV, na ilusão, na mentira do não
Na questão dos papéis do último pregão
Na certeza do tiro que fecha o caixão
- "não vais faltar, não vais faltar..."

até hoje, amanhã, ou no próximo ano
um cano é o que sobra para o paulistano.












17 dezembro 2014

519

foto João Paulo Gonçalves


Pensata
ROGERIO SANTOS

o tempo
como é relativo
quando é intenso

16 dezembro 2014

518


Pensata
ROGERIO SANTOS
a vida
é feito massa de modelar
- desista 500 vezes -
mas divirta-se ao recomeçar

15 dezembro 2014

517


Papo Cabeça
ROGERIO SANTOS

minha cabeça vai bem 
equilibrada em cima do corpo
minha cabeça até que zen
estranha a lentidão com quem me movo
um corpo em nós e uma cabeça veloz
cabeça olímpica com pernas de Usain Bolt
as pernas em trote na cadência dos 20 volts
mas nada evidencia ruptura ou curto-circuito
tudo indica que seguem juntas até a morte
é um tradicional casamento por conveniência
com a cabeça amante da preguiça
e as pernas amantes da paciência



14 dezembro 2014

516



Euridiciana
(para o tema de Italo Peron)

quando o amor partir
sem poder voltar
corte o fio do tempo

queime tudo o que ferir
guarde um derradeiro olhar
tudo tem começo e meio
e o fim é um novo esteio pra recomeçar

se a dor da partida teima em não ter fim
nem toda saudade insiste em ser ruim
não caia na tentação de olhar pra trás
que o choro vem do jeito certo pra hidratar

entenda que saudade é feita de esperança
e dentro de toda esperança há vida
e onde há vida mora o amor
que, quando a tristeza for
brotará toda a beleza
a essência que ficou

ouça o som da valsa
como fez Vinícius
sinta o seu caminho
pronto para um novo amor

(pronto pra recomeçar)

13 dezembro 2014

515


Avenida da Liberdade
ROGERIO SANTOS

a Avenida da Liberdade
está sempre congestionada
e é proibido estacionar
na Avenida da Liberdade

na Avenida da Liberdade
não há faixa de segurança
e entramos na contramão
da Avenida da Liberdade

a Avenida da Liberdade
tem sempre os sinais fechados
nas vias de duplo sentido
da Avenida da Liberdade

na Avenida da Liberdade
as calçadas são estreitas
e as conversões à direita
na Avenida da Liberdade

a Avenida da Liberdade
é cheia de transversais
e muitas tergiversais
na Avenida da Liberdade

na Avenida da Liberdade
alguns tem olhos puxados
muitos tem olhos fechados
na Avenida da Liberdade

a Avenida da Liberdade
une o Centro ao Paraíso
da utopia ao conciso
a Avenida da Liberdade

a Avenida da Liberdade
não reproduz a minha rua
nem cruza a minha cidade
a Avenida da Liberdade


11 dezembro 2014

514


Entremeio
ROGERIO SANTOS

os sons, os sonhos, os sinos, as sinas, as somas, as sílabas, os sinais.
tudo o que sibila alça voo rompe o teto da cabeça que reluz e é ouro,
tudo vaticina que alucina, e aterriza sobre o tempo, sobe e desce, agoniza e não.
nada quer saber de ter sentido, verbo é sexy, é sexo, cama e comprimido.
quer o sono do após ou quase, aquele momento em que o nexo é o instante


10 dezembro 2014

513


Pensata
ROGERIO SANTOS

por que, porque, por quê ou porquê?
não há dúvidas
o que importa mesmo são as perguntas

07 dezembro 2014

512



Achados & Perdidos
ROGERIO SANTOS

São Paulo é uma questão complicada
e a resposta é de múltipla escolha
:
quem é safo vai na letra
quem se arrisca mete um chute
quem se encontra vai na encolha
quem se acha cai no embuste